Morreu, aos 88 anos, o gaúcho Luis Fernando Verissimo, um dos autores brasileiros mais célebres e populares da atualidade. Ele era ainda cartunista, tradutor, dramaturgo e roteirista.
Prolífico, deixa obra composta de romances e, sobretudo, saborosas crônicas — além da mulher, Lúcia, e dos filhos, Mariana, Fernando e Pedro. Ao todo, são mais de 80 títulos.
O escritor também era saxofonista e amava jazz, herança cultural de quando viveu com a família nos Estados Unidos.
Filho do romancista Erico Verissimo (1905-1975), Luis Fernando se valeu do humor e da prosa leve para se destacar para além da literatura de cânone produzida pelo genitor — criador da saga de sete volumes O Tempo e o Vento, na qual narra a consolidação do Rio Grande do Sul a partir das gerações das famílias Terra e Cambará.
Pai e filho retrataram o Brasil cada um à sua maneira.
Enquanto o primeiro criou histórias épicas sobre a formação nacional, o segundo deu conta, com graça e simpatia, de expor as particularidades da alma brasileira.
São de autoria de Luis Fernando Verissimo, por exemplo, a coletânea Comédias da Vida Privada (que baseou série de TV dos anos 1990), e as crônicas sobre o personagem Ed Mort, criado em 1979 como uma paródia dos detetives noir americanos, como os criados por Raymond Chandler e Dashiell Hammett.
Recusou fono e falava só em inglês
Luis Fernando Verissimo vinha enfrentando problemas de saúde nos últimos anos, também em decorrência da doença de Parkinson.
Em janeiro de 2021, sofreu um acidente vascular cerebral em sua casa, em Porto Alegre.
O AVC afetou uma parte do seu cérebro que lhe causou dificuldade para ordenar os pensamentos, ainda que compreendesse o que se passava ao redor.
Recusou a ajuda de um fonoaudiólogo: preferiu se comunicar por gestos, monossílabos e, à sua maneira, pelo olhar. A família se ajustou ao seu desejo.
Desde então, teve uma recuperação lenta e gradual. E tinha maior facilidade para proferir palavras em inglês, língua em que se tornou fluente por conta da infância fora.
Produção literária
Na década de 1980, deu vida a seu personagem mais famoso. O Analista de Bagé mostra um psicanalista levemente heterodoxo que aplica em seus pacientes a técnica do “joelhaço”. Consistia, basicamente, numa tentativa de acalentar as dores da alma a partir desse martírio físico pontual.
Vieram na esteira Sexo na Cabeça, A Mesa Voadora, O Jardim do Diabo e Orgias.
Nos anos 1990, foi a vez de O Santinho, A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto, Gula - O Clube dos Anjos e Histórias Brasileiras de Verão.
Na década de 2000, publicou A Décima Segunda Noite, Banquete com Os Deuses, Comédias para se Ler Na Escola e Os Espiões; e também obras mais recentes, como Diálogos Impossíveis e Os Últimos Quartetos de Beethoven e Outros Contos.
Modesto, mas também debochado, costumava se gabar de ter sido um péssimo aluno de português, mesmo filho de pai escritor. Certa vez, disse à criançada, em visita a uma escola do Sul, que a nota da prova não necessariamente definiria quem seriam.
A diretora torceu o nariz. Mas os alunos adoraram.
Atuação na imprensa
Luis Fernando começou o trabalho como jornalista ainda nos anos 1950, no departamento de arte da Editora Globo. Na década seguinte, mudou-se de Porto Alegre para o Rio, onde atuou como tradutor e redator publicitário.
Em 1967, de volta à cidade natal e já casado, virou copy desk (como se chamava o revisor de textos) do jornal Zero Hora. Logo ganhou a chance de ter sua própria coluna diária, gênero no qual se especializou e se consagrou.
As primeiras foram sobre futebol — o Internacional era seu clube do coração. Nos anos 1970, passou a escrever para a Folha da Manhã, estendendo seus comentários para as áreas de cultura, comportamento e até gastronomia.
De lá, voltou ao Zero Hora e ainda passou pelo Jornal do Brasil, onde se tornou nacionalmente conhecido. Nos anos 1980, publicou textos na Veja e cobriu a Copa do Mundo para a revista Playboy. Nessa época, já havia publicado seus primeiros livros.
Nos anos 1990, para o Estado de S. Paulo, cobriu mais uma Copa, feito que se repetiu outras quatro vezes. Ele trabalhou para o jornal até 2021, quando sofreu o AVC.