O vice-presidente e principal negociador no diálogo para redução das tarifas impostas pelos Estados Unidos, Geraldo Alckmin, afirmou que embora o Brasil tenha avançado nas medidas de reciprocidade, a ação tem o intuito de “acelerar” o diálogo com Donald Trump e que a orientação do presidente Lula segue sendo para resolver o embate em uma mesa de negociação.
A declaração de Alckmin ocorre após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizar o governo federal a realizar as consultas necessárias para avaliar se a taxa de 50% aplicada pelos norte-americanos a produtos brasileiros atende aos requisitos para que o Brasil possa recorrer à chamada lei de reciprocidade e adotar uma medida equivalente contra os EUA.
“A Camex (Câmara de Comércio Exterior) foi provocada, que é um órgão colegiado formado por dez ministérios, e vai ser iniciado o processo [de análise para aplicação da lei]. O que eu espero é que isso ajude a acelerar o diálogo e a negociação”, disse.
O também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, acrescentou que Lula “tem nos orientado pela soberania nacional, pois o país não abre mão de sua soberania, e no Estado democrático os poderes são separados: Judiciário, Legislativo e Executivo; e de outro lado [Lula tem orientado] o diálogo e a negociação”.
“Essa é a disposição do Brasil e espero que isso possa até ajudar que a gente acelere a negociação”, reforçou ele.
A estratégia é parecida com a adotada pelo governo chinês, que após aplicar reciprocidade contra os Estados Unidos, conseguiu negociar a redução das tarifas. Alckmin, todavia, negou que o Brasil está se baseando em exemplos estrangeiros.
“Não estamos nos valendo de outros exemplos, essa [o diálogo] é a disposição que o Brasil sempre teve. Precisamos lembrar que temos 201 anos de parceria e amizade com os Estados Unidos, e temos uma boa complementariedade econômica”, defendeu.
Apesar disso, o vice-presidente informou que ainda não há uma nova reunião do Brasil com os Estados marcada.
Entenda
Lula determinou que o Itamaraty acione a Camex (Câmara de Comércio Exterior) para investigar a aplicação da tarifa americana e tomar as providências cabíveis. Fontes diplomáticas, no entanto, afirmam que o processo é complexo, envolve prazos formais, consultas técnicas e possibilidade de negociação, podendo se estender por até sete meses.
“É um processo longo, com prazos, consultas e chance de negociação. Não é uma medida unilateral logo de cara. Seis, sete meses, dependendo do andamento”, disse uma fonte do Ministério das Relações Exteriores.
A tarifa de 50% imposta pelo presidente dos EUA, Donald Trump, foi anunciada em 9 de julho e passou a valer em 6 de agosto.
A princípio, todos os produtos brasileiros comprados pelos Estados Unidos seriam taxados. No entanto, ao oficializar a medida, Trump deixou 694 itens de fora da tarifa extra.
Uma semana depois da vigência da tarifa, o governo anunciou um plano de contingência — batizado de Plano Brasil Soberano — para socorrer os setores mais afetados.
A medida prevê a manutenção de empregos, a devolução de parte dos impostos pagos pelas empresas e a compra, pelo governo, de alimentos perecíveis para o consumo em escolas, hospitais e nas Forças Armadas.
Lula diz que quer conversar com Trump
Em entrevista exclusiva à RECORD nesta quinta-feira (28), Lula disse que está disponível para falar com Trump sobre o tarifaço.
“O Lulinha ‘paz e amor’ estará pronto para conversar quando o presidente Donald Trump quiser”, disse o presidente brasileiro. Apesar disso, Lula frisou que não vai ficar “mendigando” aos EUA para que Trump possa negociar.
Na entrevista, Lula também reforçou que o maior prejuízo do tarifaço será para o povo americano, que vai pagar mais caro pelos produtos.
“Eu não sou de ficar chorando o leite derramado. Tomamos a atitude e colocamos R$ 30 bilhões à disposição das empresas exportadoras que vão ter problema [com o tarifaço]. Queremos defender o nosso trabalhador e o nosso empresário. Mas, ao mesmo tempo, temos que levar em conta que precisamos procurar novos mercados”, afirmou.
Depois da entrevista, o presidente reclamou da falta de um canal de diálogo com o governo americano.
“Eu tenho o [vice-presidente Geraldo] Alckmin, o [ministro da Fazenda, Fernando] Haddad e o [chanceler] Mauro Vieira, que são meus negociadores. Até agora, a gente não conseguiu falar com ninguém, com ninguém dos Estados Unidos”, afirmou o presidente durante cerimônia de nomeação de diretores de agências regulatórias.
Lula lembrou que uma reunião entre o ministro da Fazenda e o secretário de Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que aconteceria em 13 de agosto, foi cancelada dois dias antes.
Depois, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) postou nas redes sociais que foi recebido por Bessent no dia em que aconteceria a reunião com Haddad. Segundo Lula, isso demonstra a falta de seriedade dos Estados Unidos na relação com o Brasil.
“O Haddad estava com uma reunião com o secretário de Tesouro, suspendeu a reunião com o Haddad e foi se reunir com o deputado Eduardo Bolsonaro. Uma demonstração da falta de seriedade nessa relação com o Brasil”, comentou.
Escritório de advocacia nos EUA
Nessa quarta-feira (27), o governo federal contratou o escritório de advocacia americano Arnold & Porter Kaye Scholer LLP para atuar nos Estados Unidos e representar o Brasil nas ações que envolvem o tarifaço dos EUA.
O contrato, feito por meio da AGU (Advocacia-Geral da União), poderá custar, no máximo, US$ 3,5 milhões, cerca de R$ 19 milhões, por até 48 meses.
O escritório vai representar o Estado brasileiro diante de ações administrativas e judiciais, tanto com órgãos quanto com autoridades.
O trabalho será coordenado pela AGU. Segundo o órgão, o grupo americano vai atuar sob “instruções exclusivas da AGU, na defesa dos interesses” do Brasil.
A expectativa do órgão é alinhar, nos próximos dias, as estratégias de atuação. A definição deve ocorrer depois que o escritório americano analisar o processo.