Cuiabá, 18 de Fevereiro de 2026

OPINIÃO Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2026, 08:53 - A | A

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2026, 08h:53 - A | A

GABRIEL NOVIS NEVES

Um vento que passa, um sopro feliz

Gabriel Novis Neves

Um vento que mexe apenas na cortina parece reorganizar lembranças que estavam quietas.

As casas cuiabanas de antigamente tinham seus quartos e salas ‘protegidos’ por cortinas.

Era o detalhe que não podia faltar na decoração.

Lembro-me da minha casa da rua do Campo, toda encortinada, como se estivesse sempre pronta para um dia de festa.

Como é raro ventar em Cuiabá — e como aquelas cortinas eram enfeites indispensáveis — um simples sopro que as movia parecia reviver memórias adormecidas.

Nos dias comuns ficavam amarradas no canto das portas, deixando o vento passar sem tocá-las.

Nas festas, porém, eram soltas, e balançavam com um charme próprio, emprestando beleza à casa com o seu leve ondular.

E bastava aquele suave movimento para que lembranças guardadas aflorassem no pensamento.

Quando crianças, quantas vezes nos enrolávamos nelas, para desespero da minha mãe!.

E quantos beijos adolescentes, tímidos e apressados, buscavam refúgio justamente atrás das cortinas.

Minha mãe, atenta, sempre nos surpreendia — ora flagrávamos alguém enxugando as mãos nelas, ora escondendo alguma travessura.

A inocência de antigamente, quando atiçada, é doce de reviver.

Às vezes me pergunto se aquilo que desperta em mim — como num filme antigo que revisitamos — aconteceu de fato ou foi apenas delírio da lembrança.

Mas, seja como for, para quem tem o umbigo enterrado no quintal da rua de Baixo, recordar aos noventa anos é um privilégio.

É muito bom repassar a vida em Cuiabá, quando a expectativa de vida em 1935, era de cinquenta e cinco anos!.

Sou um privilegiado: deixei minha cidadezinha de vinte e cinco mil habitantes e ruas de terra batida para estudar Medicina no Rio de Janeiro — e retornar ao meu torrão natal onze anos depois.

Hoje procuro aproveitar o mais simples solavanco da natureza — até um vento discreto que mexe na cortina da minha janela — para assistir ao maravilhoso filme que foi, e continua sendo, a minha vida.

Gabriel Novis Neves é médico,ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

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