Cuiabá, 10 de Fevereiro de 2026

INTERNACIONAL Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026, 10:34 - A | A

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estados unidos

Republicanos temem efeitos de ataque de Trump nas urnas

Levantamentos de janeiro registraram mais de 55% de desaprovação dos hispânicos com relação ao presidente americano

O Globo

Uma afronta à grandeza americana. Ninguém entendeu o que ele cantava. Sua dança é repugnante, especialmente para crianças. Foi um tapa na cara dos Estados Unidos. As frases são de Donald Trump, publicadas em suas redes sociais, e descrevem o espetáculo de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl, principal evento esportivo do país, realizado no domingo, na Califórnia. Mas se a vitória do Seattle Seahawks sobre o New England Patriots não foi lá um atestado de excelência do futebol americano, a apresentação da estrela porto-riquenha, em espanhol, com o auxílio luxuoso de Lady Gaga e Ricky Martin, emocionou o público mundo afora e agradou a críticos com estofo estético mais reconhecido do que o do presidente americano. Alimentou o combalido orgulho latino e já bateu, com ao menos 135 milhões de espectadores, mostram dados preliminares, o recorde de audiência alcançado ano passado pelo rapper Kendrick Lamar. Até republicanos viram no desdém público do senhor de 79 anos um tiro no pé a nove meses das eleições de meio de mandato, quando o Congresso está em jogo.

O impacto da mensagem de união nacional de Bad Bunny, em momento marcado pela desumanização da imensa população de origem latino-americana no país, levou à beira do ataque de nervos estrategistas e líderes regionais da sigla governista. Já às voltas com o êxodo do voto latino, registrado em pequisas e nas urnas nos últimas meses, eles agora temem por um retorno substancial ao Partido Democrata do estrato que mais cresce no eleitorado, central para o retorno do trumpismo à Casa Branca. Se o que democratas apelidaram de nueva onda se confirmar, a migração dos hispânicos arrependidos complicaria ainda mais o pleito de novembro para os governistas.

'Fora ice!'
Quando venceu o Grammy, há dez dias, Benito Antonio Martínez Ocasio, o Bad Bunny, afirmou, ao receber o prêmio pelo disco do ano, que “antes de agradecer a Deus, preciso dizer ‘fora, ICE!”. Grito de guerra dos indignados com as ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês), ecoado pelo artista após agentes federais de imigração terem matado dois cidadãos americanos em Minneapolis. Diferentemente do recado político direto na premiação, o espetáculo na Califórnia foi uma ode às comunidades latinas do país e à unidade continental.

No único momento em que falou em inglês, pediu bênção para a América citando os países que a compõem, um a um, inclusive o Brasil. Encerrou o show com um desafiador “seguimos aqui”. Mas não alterou a estratégia da Casa Branca de bater ainda mais o bumbo da polarização como isca para a base ir às urnas em novembro.

No flanco republicano, a chiadeira foi maior do que o esperado. O site Politico destacou demonstrações internas de peso indignadas à postagem de Trump. Vianca Rodriguez, estrategista da campanha em 2024 para os latinos, afirmou que “alienar a base conservadora porto-riquenha é erro crasso”. Harrison Fields, ex-conselheiro de Comunicação da atual Casa Branca, disse que “minha avó porto-riquenha é 100% americana e votou em Trump”.

Emily Austin, guru conservadora, lembrou ser “possível celebrar diferentes origens e amar este país”. Alexis Wilkins, cantora e namorada do diretor do FBI, Kash Patel, alertou os republicanos de que eles “precisam melhorar sua mensagem, pois a de união nacional, proposta por Bad Bunny, foi fantástica”. E até Logan Paul, influenciador alinhado ao movimento trumpista Maga, ponderou que “Porto-riquenhos são americanos e deve-se celebrar a oportunidade de mostrar o incrível talento da ilha”.

 Entre os democratas, a celebração foi unânime. O governador da Califórnia, Gavin Newsom, postou um agradecimento a Bad Bunny por “ter usado sua voz em um momento lindo”. O primeiro senador latino do Arizona, Ruben Gallego, chorou de emoção. E a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, de origem porto-riquenha, celebrou o evento ter se tornado o Boricua Bowl, em referência ao termo indígena usado para os oriundos da ilha.

Mas ao menos seis milhões de americanos preferiram o show alternativo comandado pelo veterano, e branco, Kid Rock, filho de um milionário do Michigan. O número impressiona, embora seja um cisco frente à audiência do porto-riquenho. Batizado de “100% americano”, o show alternativo ofereceu apenas variações modorrentas do country.

Os que por lá ficaram não viram a apoteose porto-riquenha no Levi’s Stadium, que incluiu o passeio literal de Bad Bunny pela vida da ilha caribenha, que incluiu agricultores com chapéus tradicionais, senhores jogando dominó, defesa das mulheres, lutas de boxe e até um casamento real.

Enquanto ele cantava, em palco que reproduzia casa típica da ilha, celebridades latinas, entre elas Pedro Pascal, Jessica Alba e Cardi B, dançavam como se aquele fosse também os EUA do lado de fora do estádio, o dos agentes mascarados e armados que perseguem cidadãos exclusivamente por sua aparência étnica, prendem crianças e asfixiam economicamente bairros onde vivem hispânicos.

Dos versos premonitórios entoados por Ricky Martin em “Lo que pasó a Hawaii” à frase exibida no estádio que afirmava “a única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”, nada agradou ao presidente.

— Não foi surpresa Trump criticar alguém que fala espanhol e pode ser mais popular do que ele. Dentro de sua lógica, não cometeu erro que pode lhe custar a maioria no Congresso, apenas repetiu o que a base espera ouvir dele desde sua entrada na política: racismo, xenofobia e repúdio por quem ele não crê fazer parte dos EUA — disse ao GLOBO Cesar Hernández, especialista em direito migratório da Universidade Estadual de Ohio.

Pregação a convertidos
Há lógica na pregação para convertidos, argumenta a Casa Branca. O voto nos EUA não é obrigatório e os pleitos não ocorrem em feriados para facilitar a vida do cidadão. O comparecimento é menor nas eleições de meio de mandato e a direita não contará com Trump nas cédulas. Foi assim em 2018, quando os democratas venceram de lavada e retomaram o controle da Câmara, com investigações que levaram aos processos de impeachment do republicano.

Para evitar filme repetido, o governo enfatiza à base que o resultado em novembro determinará o prazo de validade do giro radical à direita posto em prática a partir de janeiro do ano passado. A cúpula em Washington crê que, mesmo irritados com o descumprimento de uma das promessas centrais da campanha republicana de 2024, o combate ao alto custo de vida, a militância, se convencida a sair de casa, votará nos candidatos de Trump. Reduz-se, assim, o tamanho do tombo.

A atenção é menos em alargar a coalizão conservadora, como em 2024, no apoio recorde dos hispânicos, com vantagem nacional de apenas 4 pontos percentuais no estrato para a então vice-presidente Kamala Harris, e mais na prata da casa. As ofensas a Bad Bunny e, por tabela, à cultura porto-riquenha e latina, são ataque de quem joga hoje na defensiva.

Rejeição nas pesquisas
Estratégia que, no entanto, apontam políticos dos dois lados do tabuleiro, não faz a realidade dos números desaparecer. Levantamento do YouGov para a The Economist entre 16 e 19 de janeiro registrou 55% de desaprovação dos hispânicos a Trump. Já a pesquisa do Siena College para o New York Times, também em janeiro, registrou 59% insatisfeitos.

O voto arrependido, ou “anti-ICE”, dos hispânicos, garantiu as vitórias da oposição nas disputas para o governo de Nova Jersey em 2025 e, este ano, à vaga ao Senado estadual no Texas, com migração de 26 pontos percentuais de eleitores de Trump para o candidato democrata, um líder sindical, em distrito conservador. Uma repetição em novembro dessa margem no estado, que tem substantiva população latina, e nos vizinhos Arizona e Novo México, provocaria um terremoto no trumpismo.

Até novembro, a imagem no show do menino que representava Bad Bunny quando criança mas lembrou a muitos o equatoriano Liam Conejo Ramos, de 5 anos, preso pelo ICE em Minnesota, pode perder a nitidez na memória de cidadãos país afora. Mas o uso da apresentação do ídolo de americanos de todas as cores para menosprezar sua língua e cultura pode ter sido a gota d’água para os eleitores latinos. Trump cometeu, em bom espanhol, um error garrafal.

 

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