No que se desenha como a preparação para um ataque contra o Irã, assim como fez durante meses no Caribe antes de invadir a Venezuela, os Estados Unidos deslocaram 10 aviões de reabastecimento aéreo KC-135 para a Europa, rumo a bases no Oriente Médio. A movimentação, que durou entre a noite da última terça-feira e a madrugada de quarta, acontece uma semana depois do deslocamento do porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de ataque, que saíram do Mar da China Meridional em direção ao Oriente Médio, mas ainda não chegou ao destino final, o Golfo Pérsico.
Apesar do aparente recuo de retórica do presidente americano, Donald Trump — que reiteradamente condicionou um ataque à morte de manifestantes, dizendo que os ajudaria — Washington insiste com a mobilização militar na região. De acordo com o jornal americano Wall Street Journal (WSJ), o presidente americano considera os ativos navais "decisivos", enquanto o Irã parece escalar a repressão aos protestos, que duraram quase três semanas e deixaram milhares de mortos, confiscando bens, fechando empresas e processando pessoas que, segundo o regime, teriam atuado na incitação às manifestações.
Esses deslocamentos levaram assessores do Pentágono e da Casa Branca a aprimorarem um conjunto de opções para Trump, incluindo algumas que visam derrubar o regime iraniano. Autoridades, ainda de acordo com o WSJ, também estão elaborando opções mais moderadas, que poderiam incluir ataques a instalações da Guarda Revolucionária Islâmica.
Sistemas de rastreamento marítimo mostraram o porta-aviões USS Abraham Lincoln e seu grupo de ataque, que inclui destróieres, F-35 e outros caças, além de aeronaves de interferência eletrônica, se movimentando entre o Mar da China Meridional e o Golfo Pérsico. No último domingo, caças F-15E dos EUA pousaram na Jordânia, de acordo com autoridades americanas e dados de rastreamento de voos.
Os F-15E já operam há algum tempo na Jordânia, e o envio de mais aeronaves reforçaria as capacidades aéreas dos EUA, já que o caça pode atingir alvos terrestres e aéreos. Uma campanha aérea de maior escala no Irã, de acordo com o WSJ, tenderia a empregar meios furtivos como F-35, bombardeiros B-2 e submarinos lançadores de mísseis de cruzeiro — sistemas usados no ataque americano de junho contra instalações nucleares iranianas —, embora não haja indícios de deslocamento desses ativos para o Oriente Médio.
Na região, os EUA têm oito bases permanentes e cerca de 12 instalações militares. E, para o governo Trump, elas precisam ser defendidas de uma possível retaliação de Teerã, como ameaçou o presidente do Parlamento iraniano no último dia 11, caso Trump ordene, de fato, um ataque. Três dias depois da ameaça, alguns militares americanos e britânicos destacados em al-Udeid, no Catar, na maior base dos EUA no Oriente Médio, receberam ordens para deixar o local.
Mas, segundo o WSL, sistemas de defesa de médio alcance Patriot e de alta altitude Thaad já foram preparados para repelir qualquer contra-ataque iraniano, como aconteceu em junho do ano passado, durante a guerra de 12 dias entre Tel Aviv, Teerã e Washington.
Autoridades disseram que Israel expressou ao governo Trump preocupações especificamente sobre suas próprias defesas caso o Irã atacasse o país, após ter esgotado seu estoque de interceptores durante a guerra de 12 dias com o Irã no ano passado. Após esse conflito, os EUA deslocaram um grupo de ataque de porta-aviões e algumas defesas aéreas para fora da região, enquanto Trump voltava sua atenção para a Venezuela e o Hemisfério Ocidental.
'Temos que ver'
Trump ainda não ordenou ataques contra o Irã, e sua decisão final permanece incerta. Mas as discussões em Washington mostram que Trump não descartou punir Teerã pelo assassinato de manifestantes. Na última terça-feira, quando foi perguntado se os EUA ainda poderiam atacar o Irã, Trump observou que o regime acatou os alertas de Washington e cancelou os planos de enforcar 837 pessoas na semana passada.
— Teremos que ver o que acontece com o Irã — afirmo o presidente, na ocasião.
O conselheiro de segurança nacional e secretário de Estado, Marco Rubio, conversou na segunda-feira sobre o Irã com o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita , príncipe Faisal bin Farhan Al Saud , cujo apoio seria necessário em uma campanha aérea contra o Irã.
A Casa Branca também precisa lidar com a questão de se o governo está preparado para realizar uma campanha militar prolongada que pode durar semanas ou meses, caso os manifestantes no Irã voltem às ruas e peçam proteção a Trump.
A pressão americana
Alguns funcionários levantaram questões internas sobre o objetivo político de ataques ao Irã neste momento. Trump está ciente de que qualquer ação militar ocorreria muito depois de ele ter prometido aos manifestantes que "a ajuda está a caminho" e que provavelmente não seria tão rápida quanto a operação que depôs o ex-líder venezuelano Nicolás Maduro.
Alguns assessores sugeriram o uso de meios não militares para repreender o Irã, como ajudar os manifestantes a coordenar ações online ou anunciar novas sanções contra o regime.
A pressão financeira dos EUA “funcionou porque, em dezembro, a economia deles entrou em colapso”, disse o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, na terça-feira, no Fórum Econômico Mundial, na Suíça.
— É por isso que as pessoas foram às ruas. Isso é estratégia econômica, sem confrontos armados, e as coisas estão caminhando de forma muito positiva por aqui — afirmou.
Mas o presidente tem enviado sinais contraditórios sobre o tema da mudança na liderança do Irã. Em entrevista à Reuters na semana passada, Trump expressou ceticismo quanto à possibilidade de os iranianos se unirem em torno de uma figura pós-regime como Reza Pahlavi , o filho exilado do xá do Irã deposto na revolução de 1979. No entanto, em entrevista posterior, ele afirmou que desejava a saída dos governantes do Irã.
— É hora de buscar uma nova liderança no Irã — disse ele ao Politico no último sábado, respondendo a postagens nas redes sociais do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, que culpava Trump pelos protestos. — Esse homem é doente e deveria governar seu país direito e parar de matar pessoas.
Teerã prometeu atacar os americanos caso os EUA bombardeiem o Irã, especialmente se o alvo for a liderança iraniana.
— Qualquer agressão contra o líder supremo do nosso país equivale a uma guerra total contra a nação iraniana — disse o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, no domingo.

