É 2026. Mas poderia perfeitamente ser 1999, quando comecei no jornalismo. Ou antes. Não importa quanto tempo passe, as mulheres seguem como alvo da desonestidade masculina.
Desta vez foi na voz de Gustavo Marques. Jovem de 24 anos, zagueiro do Bragantino, frustrado pela eliminação do seu time contra o São Paulo, disparou contra a árbitra Daiane Muniz. Autorizado pelo ambiente que naturaliza o tempo todo agressões de toda sorte às mulheres, ele afirma mais de uma vez que “um jogo daquele tamanho” não poderia ser apitado por alguém do sexo feminino.
Em mais de duas décadas de carreira no esporte nacional e internacional, testemunhei grandes profissionais serem questionadas apenas por serem mulheres. Hoje temos narradoras, comentaristas, presidente de clube. Estamos em todos os lugares, avançando, mas enfrentando um inimigo sempre presente, mesmo que por vezes invisível. Até que alguém resolve sair debaixo desse véu para nos atacar.
Estamos acostumadas com isso. No futebol, é comum essa tentativa de aliviar a dor de um homem às custas da nossa reputação. Daiane Muniz é árbitra Fifa desde 2018, uma das melhores e mais sérias profissionais que temos. Ainda assim tem sua carreira inteira contestada por um jogador inconformado por um resultado (justo!) de um jogo.
Já com os acréscimos batidos, Juninho Capixaba cai na área. Pênalti? Discutível para dizer o mínimo. Daiane apita o fim da partida e começa uma confusão. É nesse contexto que a declaração lamentável de Gustavo acontece. Um lance que o VAR não chamou, e que a árbitra decide em campo. Se fosse um homem, o que você teria dito no final do jogo, Gustavo? Eu me pergunto.
O mais assustador para mim não é nem a declaração em si, mas o desembaraço com a qual ela é dita, mesmo que segundos depois o próprio Gustavo peça desculpas por, talvez, estar falando algum absurdo. Ainda com a sensação de que, sim, sua frase era infeliz, e em algum nível de consciência ele tinha noção, nada o impediu de falar. E repetir.
Fica muito claro que seguimos falhando. Se uma frase machista sai da boca de um senhor de 70 anos, o primeiro movimento é relativizar. “Ah, mas ele é de outra geração”. Mas e quando a agressão vem de um rapaz de apenas 24 anos? O que isso nos mostra? A evidente falta de educação, de formação de caráter. E não se engane: Gustavo sabe agora que errou, vai ser penalizado por isso, mas e os inúmeros Gustavos que existem por aí e falam as mesmas coisas, e até piores, com a porta fechada?
Gustavo, sua frase é uma violência, espero do fundo do coração que você se dê conta disso agora. Não existe espaço mais para duvidar de capacidade pelo gênero, diminuir talentos, mensurar inteligência. É por pensamentos assim que alguns homens ainda se sentem no direito de nos violar, nos agredir, nos exterminar. E não, não é exagero. É por frases assim que a ideia de que somos inferiores e nossa vida vale menos que tantas de nós estão pagando.
E nessa semana ainda tivemos o vexame do Vasco-AC, que achou uma boa ideia “homenagear” seus atletas que não disputaram uma partida contra o Velo Clube, pela Copa do Brasil, por estarem presos por estupro. Isso sem contar que o goleiro do time acreano é Bruno, condenado pelo homicídio triplamente qualificado de Eliza Samudio.
Parece piada de mau gosto, mas é a realidade. O machismo se manifesta cada vez mais alto e sem trava.
Preciso dizer que tenho uma gratidão subversiva. A fala de Gustavo é um tapa na cara que a gente precisava porque não dá para achar que está tudo bem. É importante saber que essa peste segue infestada pelos ambientes, e é muito pior deixar esses pensamentos se alimentando na sombra.
Gustavo não é vítima, longe disso, mas é produto de um mal social estrutural. Era de se esperar que um rapaz de 24 anos tivesse mais letramento nessa seara, afinal de contas quando ele ainda era uma criança a Patrícia Amorim já era presidente do Flamengo, Ana Paula Oliveira estava bandeirando e Sandra Regina apitando jogos importantes.
Repudio ainda mais o pensamento que não é dito em público, mas alimentado todos os dias para formar uma nova geração de machistas. Vamos mais uma vez apostar na educação, e isso é uma missão coletiva, começa dentro de casa. É preciso discutir o tempo todo sobre os direitos e igualdades desde a infância. Federação Paulista, CBF, clubes… Obriguem treinamentos anti-machismo desde a base. Façam campanhas educativas. Contratem e apoiem mulheres!
A repercussão da fala de Gustavo foi enorme e deve gerar uma onda de sanções a ele. Seu clube, o Red Bull Bragantino, disse que vai estudar nos próximos dias uma punição. Os comentários machistas também devem render denúncia na justiça desportiva, por ato discriminatório. A dor pode ensinar lições a Gustavo Marques, mas é a educação que vai salvar as próximas gerações.
Não vamos desistir. O futebol é de todos nós.



