O mercado da soja no Brasil atravessa um novo período de pressão sobre os preços em reais, em meio à combinação de câmbio valorizado e avanço da colheita. A avaliação é de Anderson Nacaxe, CEO da Oken.Finance, que aponta o retorno das cotações às mínimas e a dependência crescente da demanda externa para sustentar o escoamento.
Em Sorriso, o preço líquido ao produtor já fica abaixo de R$ 100 por saca, com o valor bruto em R$ 101,20 em 27 de janeiro, segundo referência do IMEA. A valorização do real, que alcança 5,20 no início da colheita, e a entrada de uma supersafra estimada em cerca de 181 milhões de toneladas concentram a oferta no curto prazo e reduzem o valor convertido do grão em moeda local, pressionando o mercado físico no momento mais sensível da comercialização.
Na comparação entre as principais origens exportadoras, a soja brasileira segue competitiva em reais. O produto nacional opera em torno de R$ 2.200 por tonelada, em nível semelhante ao da Argentina e abaixo do Golfo dos Estados Unidos, que supera R$ 2.300 por tonelada. A soja argentina convive com maior volatilidade e incertezas relacionadas a volume e impostos, enquanto a americana permanece estruturalmente mais cara quando convertida para reais.
Essa relação de preços sustenta a preferência chinesa pela soja brasileira. Ao longo da última década, o Brasil ampliou de forma consistente sua participação nas importações chinesas, aproximando-se de três quartos do total, enquanto os Estados Unidos perderam espaço. O cenário não elimina os efeitos negativos do câmbio e da safra recorde, mas indica que a sustentação vem da continuidade dos embarques e da redução do risco de novas mínimas em reais.
“O ambiente segue difícil, mas não caracteriza perda de mercado. A demanda existe, o Brasil segue sendo a origem escolhida e o fluxo aponta para o escoamento da safra. Em momentos como este, a sustentação não vem de recuperação de preço, mas da capacidade de manter embarques e reduzir o risco de novas mínimas em reais”, conclui.

