Cuiabá, 10 de Março de 2026

AGRONEGÓCIO Terça-feira, 10 de Março de 2026, 09:41 - A | A

Terça-feira, 10 de Março de 2026, 09h:41 - A | A

Gestão ambiental

Dados territoriais orientam políticas públicas, crédito rural e planejamento agrícola

Embrapa

Do vinho gaúcho ao café amazônico e ao zoneamento do dendê, mapeamentos da Embrapa mostram como a ciência aplicada orienta decisões no campo e fundamenta políticas públicas. Em diferentes regiões do Brasil, dados sobre clima, solo e uso da terra antecipam riscos, fortalecem a produção e balizam crédito, seguro e investimentos, com impacto direto na expansão sustentável da agricultura.

A base técnica construída a partir desses levantamentos alimenta bancos de dados públicos, fundamenta zoneamentos e programas de regularização ambiental e orienta decisões que vão do crédito rural ao manejo de cultivos. Para além da geração de mapas, consolida-se como ferramenta de gestão territorial que ajuda o País a prever riscos climáticos, a definir o uso do solo e a conciliar produção e conservação.

Para a chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Territorial (SP), Lucíola Magalhães, os mapeamentos e os zoneamentos são ferramentas cruciais para o desenvolvimento agropecuário. “Eles expressam, de forma mais simples e direta, a complexidade de diferentes fenômenos que ocorrem em um território, onde as políticas e ações acontecem. A capacidade de retratar um fenômeno ou de sintetizar dados de múltiplas dimensões (ambientais, sociais, agrícolas, econômicas, fundiárias e de infraestrutura) é vital para apoiar o desenvolvimento sustentável da agropecuária nacional. Traduz-se em melhor governança e em aprimoramento do planejamento e gestão do uso das terras, e fornece a base essencial para a formulação, execução e monitoramento de políticas públicas”, afirma.

À medida que essas informações se consolidam como instrumentos estratégicos de planejamento, cresce a demanda por dados territoriais. Governos, bancos, cooperativas e empresas têm recorrido a esse conhecimento para planejar políticas públicas, avaliar riscos e orientar investimentos. Nesse cenário, os mapeamentos da Embrapa ganham cada vez mais importância como referências técnicas para influenciar decisões econômicas e de gestão.

Zarc abrange mais de 40 culturas em 5.500 municípios

Esse movimento aparece com clareza no crédito e no seguro rural. Boa parte dos financiamentos do campo só é aprovada quando o plantio segue as indicações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), ferramenta desenvolvida pela Embrapa. Em 2023, o custeio agrícola movimentou cerca de R$ 143,9 bilhões, segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), e grande parte desse valor depende, direta ou indiretamente, do zoneamento.

Nesse contexto, o Zarc se tornou um elo entre produção, crédito e política agrícola. Lançada em 1996, inicialmente para o trigo, a ferramenta abrange atualmente mais de 40 culturas e orienta políticas de crédito e de seguro rural, influenciando milhares de produtores e dando suporte às principais decisões financeiras no campo.

Além disso, o Zarc tem impacto direto na pesquisa e na inovação. Ao identificar regiões sujeitas a excesso ou déficit hídrico, geadas ou temperaturas elevadas, direciona estudos para desenvolver cultivares adaptadas e práticas de manejo específicas. A ferramenta também subsidia modelos de simulação de culturas, indica janelas de semeadura e colheita de menor risco e valida novas tecnologias - de cultivares a insumos - em diferentes cenários agroclimáticos.

O funcionamento do Zarc depende de uma engenharia científica robusta, que combina dados de clima, solo e fenologia das plantas, séries históricas, capacidade de armazenamento de água no solo e exigências hídricas das culturas. A análise é probabilística e apoiada em décadas de registros, integrando dados meteorológicos e de solos harmonizados, além da calibração de milhares de cultivares.

Todo o processo envolve uma rede nacional de pesquisadores da Embrapa, instituições estaduais e universidades, com infraestrutura computacional sediada na Embrapa Agricultura Digital (SP) capaz de rodar milhões de simulações para culturas, tipos de solo e períodos de semeadura em mais de 5.500 municípios.

Nos próximos anos, a ferramenta deve passar por aprimoramentos significativos, segundo o pesquisador da Embrapa Agricultura Digital Eduardo Monteiro, coordenador da Rede Zarc Embrapa. Ele acredita que o avanço da modelagem dinâmica - integrando cenários climáticos, modelos de crescimento de culturas e inteligência artificial - permitirá análises mais detalhadas. Além disso, a expansão de sensores de campo, imagens de satélite de alta resolução e drones ampliará o volume de informações disponíveis e permitirá uma diferenciação das recomendações para microrregiões e até talhões específicos, além do monitoramento quase em tempo real do estresse hídrico e do desenvolvimento das culturas.

Essas melhorias mostram como o Zarc pode transformar decisões no campo, oferecendo dados precisos que orientam produtores e políticas agrícolas.

No Vale dos Vinhedos (RS), os mapeamentos também exercem papel decisivo. Informações que antes eram apenas percepções — como declividade, altitude e exposição solar — ganharam precisão com as geotecnologias. “Do contrário, seriam apenas suposições”, afirma a pesquisadora da Embrapa Uva e Vinho (RS) Rosemary Hoff.

A região ocupa cerca de 81 km² e concentra aproximadamente 1.760 hectares de vinhedos georreferenciados — 26% do território. Com variação de altitude entre 450 e 700 metros e encostas íngremes que influenciam drenagem e insolação, o relevo contribui para diferenciações de terroir — combinação de solo, clima e paisagem que confere identidade aos vinhos. Segundo Hoff, essas características só puderam ser reconhecidas e comparadas com o apoio dos levantamentos espaciais.

Esses levantamentos permitem comparar relevo, uso da terra e geodiversidade entre diferentes Indicações Geográficas (IGs) da Serra Gaúcha, revelando a diversidade real dos territórios. Mapas de relevo e uso da terra, por exemplo, foram fundamentais para definir limites tanto de Indicações Geográficas quanto de Denominações de Origem (DOs). “Altitude, declividade e Áreas de Preservação Permanente (APPs) contribuem muito para delimitar uma IG”, explica a pesquisadora, que participou dos processos.

Os efeitos aparecem também no cotidiano dos produtores. Com a conquista dos selos de Indicação de Procedência (IP), em 2022, e de DO, em 2012, eles passaram a seguir normas mais rígidas de manejo, controle de doenças e identificação de cultivares. Também surgiram outros impactos menos visíveis, como maior fixação de pessoas no território, busca por qualificação e interesse crescente em pesquisa. O avanço do enoturismo, que hoje movimenta milhares de visitantes por ano no Vale, contribui para impulsionar a criação de novas escolas técnicas e superiores nas regiões de IG.

Essa transformação se distribui por todo o conjunto das cerca de 30 vinícolas registradas na DO e pelos diversos viticultores da região.

Para Hoff, o Vale dos Vinhedos é um exemplo de como ciência, tradição e gestão territorial podem caminhar juntas. “Os mapas nos permitiram entender melhor o que sempre esteve ali”, diz. Ela acredita que, à medida que novas tecnologias surgem, o território tende a se aperfeiçoar, não por mudar seus limites, mas por aprofundar o conhecimento sobre eles e fortalecer a identidade que sustenta a região.

O Zoneamento Agroecológico do Dendê (ZAE Dendê) é outro exemplo de mapeamento que originou uma política pública. Desenvolvido pela Embrapa Solos (RJ), Embrapa Amazônia Oriental (PA) e Embrapa Amazônia Ocidental (AM), o estudo identificou regiões aptas ao cultivo do dendê (palma-de-óleo) sem avançar sobre a vegetação nativa.

O zoneamento foi elaborado no contexto de expansão do biodiesel e da busca por alternativas energéticas sustentáveis.  De alta produtividade e adaptado ao clima equatorial, o dendezeiro foi escolhido por unir rendimento, aptidão climática e geração de empregos.

Publicado em 2010, o estudo apontou cerca de 32 milhões de hectares aptos ao cultivo, sendo 29 milhões na Amazônia Legal. As áreas indicadas para expansão estavam restritas a regiões desmatadas até 2007, conforme o Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A partir desse diagnóstico, o Governo Federal estruturou o Programa de Produção Sustentável de Palma-de-Óleo.

O ZAE Dendê também orientou crédito agrícola e planejamento fundiário no Pará, principal estado produtor, e guiou a criação de protocolos socioambientais para empresas. Essas regras reduziram impactos sobre povos tradicionais, evitaram blocos contínuos de monocultura e consideraram infraestrutura e proximidade de usinas.

Para o pesquisador Wenceslau Teixeira, da Embrapa Solos, o zoneamento deixou um legado duradouro. “O estudo ajudou não somente a consolidar os plantios em monocultivos, mas também a abrir caminhos para sistemas agroflorestais com pequenos produtores. Isso fomentou a cadeia produtiva no nordeste do Pará, direcionando investimentos e políticas de incentivo sem estimular o desmatamento”, afirma.

Exemplo mais recente vem das Matas de Rondônia, região formada por 15 municípios e berço do Robusta Amazônico, uma variedade de café canéfora que vem ganhando espaço no mercado nacional e internacional ano a ano. O mapeamento de uso e cobertura da terra, elaborado a partir de imagens de satélite e análises comparativas entre os anos de 2020 e 2023, demonstrou que a produção de café não avançou sobre as áreas de florestas e que ainda pode se expandir para regiões de pastagem.

A comprovação de que a produção não está associada ao desmatamento tornou-se uma exigência de mercados internacionais, como o da União Europeia, que restringiu a compra de produtos associados à derrubada de florestas desde 2020. Nesse contexto, o estudo da Embrapa indicou que as áreas florestais convertidas para o cultivo de café nas Matas de Rondônia não ultrapassou 1%, o que reforça a imagem de uma produção alinhada à conservação ambiental.

O trabalho também revelou que as reservas indígenas contribuem para a preservação e conservação ambiental de grandes “blocos” de florestas nativas primárias, alcançando uma área de 1,2 milhão de hectares.

Para os produtores, o impacto vai além da imagem. As informações fortalecem a segurança comercial, facilitam o acesso a mercados mais exigentes e ajudam a rebater narrativas que associam a produção amazônica ao desmatamento.

O pesquisador da Embrapa Rondônia (RO) Enrique Alves acredita que, além de se beneficiarem das vantagens de manter a floresta, os produtores também usam esse resultado como valor adicional à marca Robustas Amazônicos. Para governos e compradores, por sua vez, os mapas oferecem uma referência confiável em decisões de compra, investimentos e políticas públicas.

O trabalho ganhou ainda mais relevância porque a região abriga a primeira Denominação de Origem do mundo para cafés canéforas sustentáveis, um selo que agrega valor ao produto e que depende de informações confiáveis sobre a origem da produção.

O estudo, fruto de parceria entre a Embrapa Territorial, Embrapa Rondônia e Cafeicultores Associados da Região das Matas de Rondônia (Caferon), demonstra ainda balanço positivo da produção de café da região. Leia mais aqui.

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