Por dias, o destino de cerca de 90 milhões de iranianos pareceu oscilar entre guerra e paz, enquanto autoridades dos Estados Unidos e do Irã trocavam ameaças de ataque e apelos por diplomacia. Com negociações indiretas entre os dois países previstas para esta quinta-feira, em Genebra — vistas como a última chance de alcançar um acordo que evite um conflito — alguns moradores de Teerã estão preparando mochilas de emergência, comprando geradores e planejando fugir para áreas rurais ou até para fora do país. Outros preferem observar e esperar, acreditando que têm pouca clareza sobre o que pode acontecer e poucos meios para se preparar.
Há ainda quem se sinta paralisado pela ansiedade.
— Estou ficando louca — diz Sara, química em Teerã, em entrevista por telefone. — Queria que o que tiver de acontecer acontecesse logo, para sairmos desse limbo.
Como todos os iranianos ouvidos pelo The New York Times, Sara, de 53 anos, pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome, por medo de represálias das autoridades.
Mãe de dois filhos, ela diz que não sabe se é cedo demais para tirar a filha da escola e começar a evacuar parentes idosos. Em caso de guerra, a química afirma que as estradas que saem de Teerã ficariam rapidamente congestionadas.
Muitos iranianos já experimentaram algo semelhante em junho, durante a guerra de 12 dias com Israel, quando milhões deixaram a capital rumo ao Mar Cáspio e às áreas montanhosas nos arredores da cidade. Um trajeto que normalmente levaria quatro horas demorou quase um dia para ser concluído.
Apesar disso, o governo iraniano demonstrou pouco planejamento de contingência. Na semana passada, o prefeito de Teerã, Alireza Zakani, afirmou que estações de metrô e estacionamentos subterrâneos poderiam ser transformados em abrigos. Segundo ele, a prefeitura tomou medidas “mínimas” para prepará-los.
Especialistas em planejamento urbano alertam que esses espaços precisariam de aquecimento, ventilação e instalações sanitárias adequadas, e não há informações públicas que indiquem que essas providências foram adotadas.
Zakani, criticado pela falta de preparação durante o conflito de junho, classificou as preocupações como prematuras. Em entrevista à imprensa estatal, deu de ombros e disse que as autoridades não querem causar pânico.
— Não acreditamos que haverá uma guerra tão grave a ponto de forçarmos uma situação de emergência à população — afirma. Ele acusa Washington de tentar semear medo entre os iranianos, que vivem em um estado permanente de “nem guerra, nem paz”.
Alguns dizem se sentir abandonados.
— É como se não houvesse governo e tivéssemos que descobrir sozinhos como sobreviver a uma guerra contra o maior exército do mundo — explica Amir, de 42 anos, empresário, que evita viajar a trabalho por receio de deixar a família para trás.
Na superfície, pouca coisa mudou em Teerã. Supermercados seguem abastecidos, segundo moradores, e não há sinais de escassez de alimentos, gasolina ou água. Escolas e comércios permanecem abertos, e a rotina segue.
Online, porém, iranianos compartilham orientações sobre como se preparar para o pior. Alguns recomendam anotar telefones de emergência e definir pontos de encontro, caso as autoridades voltem a cortar internet e telecomunicações, como fizeram durante a guerra de junho e após protestos antigoverno no mês passado.
Na semana passada, o ativista iraniano radicado na França Ilia Hashemi publicou uma lista amplamente divulgada sugerindo estocar suprimentos para duas semanas: cerca de quatro litros de água por pessoa por dia, alimentos enlatados e secos, velas, lanternas, kits de primeiros socorros, roupas quentes e baterias externas.
No dia seguinte, Hashemi afirmou ter recebido mensagens de pessoas indignadas no Irã dizendo que não conseguem suprir as necessidades nem por um único dia.
A tensão externa se soma a uma grave crise econômica. As manifestações começaram em dezembro após a forte desvalorização do rial. Desde então, a moeda atingiu novos recordes de baixa, enquanto a inflação subiu 60% em relação ao ano anterior, segundo um importante jornal econômico iraniano.
Itens básicos como carne, frango e ovos tornaram-se inacessíveis para muitas famílias, e há quem precise escolher entre pagar o aluguel ou comprar comida.
— Não é nem possível fazer planos — afirma Sahand, morador de Teerã. — As famílias não têm dinheiro para estocar alimentos e remédios. Só pensam em para onde ir e onde se esconder.
Ainda assim, a contestação interna não desapareceu. Desde sábado, protestos eclodiram nos campi universitários em pelo menos três cidades — Teerã, Mashhad e Isfahan — com estudantes pedindo o fim do regime clerical e queimando a bandeira do Estado, segundo vídeos verificados pela imprensa internacional.
Reza, especialista em marketing e conservador que apoia o regime, diz estar frustrado ao ver as autoridades reprimindo protestos universitários em vez de anunciar planos de emergência mais robustos.
“Quando estamos sob a sombra do exército mais poderoso do mundo, é responsabilidade do governo considerar os piores cenários”, escreveu em mensagem de texto.
Sahar, de 38 anos, que trabalha em uma startup em Teerã, afirma temer que o país seja disputado por duas forças que pouco se importam com a população.
— É como dois homens discutindo por causa de uma casa. No fim, eles a incendeiam enquanto ainda estamos lá dentro — diz.



