O ano de 2025 foi desafiador para o empresariado brasileiro. Segundo levantamento do Monitor RGF, as empresas em recuperação judicial no Mato Grosso cresceram cerca de 32,3% em relação ao ano anterior, ultrapassando a marca de 200 companhias buscando proteção. No país, a alta foi de 24% no mesmo período, alcançando 5.680 negócios em recuperação judicial.
Além disso, o Mato Grosso aparece em terceiro lugar no ranking dos estados com maior número de empresas em recuperação judicial no agronegócio, consolidando o setor como o mais impactado pela crise no estado. Ao todo, 72 empresas do agro estão em recuperação judicial, com destaque para o segmento de cultivo de soja, que concentra 48 companhias em crise. Entre os principais fatores estão a manutenção de juros elevados e o encarecimento do crédito, que pressionaram o caixa das companhias.
Para Luiz Alexandre Cristaldo, economista mato-grossense, auditor, vice-presidente do Instituto Brasileiro da Insolvência (Ibajud) e sócio da consultoria empresarial Zapaz, o aumento não deve ser interpretado apenas como sinal de deterioração econômica, mas também como uma mudança na forma como as empresas utilizam o instrumento jurídico.
“A recuperação judicial precisa deixar de ser vista como atestado de falência. Hoje ela é um mecanismo legal para reorganização financeira. Muitas empresas recorrem ao instituto para ajustar custos, renegociar dívidas e continuar operando”, afirma.
Cristaldo destaca que parte das dificuldades financeiras atuais ainda é reflexo do período pós-pandemia. Segundo ele, muitas empresas ficaram até dois anos com receitas comprometidas ou zeradas e ainda tentam recompor o fluxo de caixa, ao mesmo tempo em que enfrentam crédito caro e margens reduzidas, especialmente no varejo.
Outro ponto ressaltado pelo especialista é que a taxa de sucesso das recuperações tem evoluído. “Atualmente, de todas as empresas que entram em recuperação judicial, cerca de 25% não concluem o processo, e isso não significa necessariamente falência — muitas são adquiridas ou reestruturadas por outros grupos”, explica.
O economista também observa uma mudança cultural no mercado. Credores passaram a analisar crédito com critérios mais técnicos, enquanto empresários buscam maior profissionalização na gestão financeira e no relacionamento com fornecedores. Para ele, esse amadurecimento tende a tornar o ambiente de insolvência mais saudável no país.
“Em economias mais desenvolvidas, a reestruturação empresarial faz parte do ciclo natural dos negócios. O Brasil ainda está consolidando essa cultura, mas a recuperação judicial é hoje o principal instrumento legal para preservar empresas, empregos e cadeias produtivas”, conclui Cristaldo.



